No atual cenário de produção de conteúdo em escala, os grandes modelos de linguagem (LLMs) assumiram um papel de destaque na rotina de roteiristas, estrategistas de conteúdo e diretores de criação. Ferramentas generativas são utilizadas diariamente para estruturar arcos dramáticos, gerar opções de diálogos provisórios, criar sinopses de vendas (pitchings) e destravar processos criativos bloqueados. Além disso, grandes estúdios e agências de comunicação utilizam algoritmos preditivos para analisar tendências de buscas e padrões de audiência em plataformas digitais, moldando o desenvolvimento de scripts de acordo com o que os dados apontam como "sucesso garantido". Esse movimento transforma a criação de histórias em uma prática cada vez mais orientada por dados de mercado.
Contudo, a utilização massiva da IA na redação de roteiros levanta questionamentos jurídicos e éticos extremamente complexos, com destaque para a violação de direitos autorais e o risco permanente de plágio velado. Os sistemas generativos são treinados por meio da raspagem (scraping) de milhões de livros, roteiros consagrados, peças teatrais e artigos acadêmicos disponíveis na internet, quase sempre sem a autorização explícita ou a justa compensação financeira dos autores originais. Quando uma ferramenta gera um roteiro completo, ela está essencialmente realizando uma recombinação estatística sofisticada de estruturas e trechos de textos já existentes, criando incertezas legais sobre quem detém a autoria e os direitos de exploração comercial da nova obra.
Outra consequência preocupante é o empobrecimento e a padronização cultural da narrativa. Ao orientar a criação de scripts por parâmetros estatísticos e bancos de dados do passado, a IA tende a perpetuar clichês, estereótipos e fórmulas repetitivas, desencorajando ideias verdadeiramente originais, ousadas ou fora do eixo comercial tradicional. O roteiro de uma grande produção ou campanha não deve ser tratado como um produto pré-fabricado; ele é o resultado da vivência individual, das reflexões sociais e da visão crítica de um autor humano. Para que o setor continue evoluindo com relevância cultural, a inteligência artificial deve permanecer restrita ao papel de assistente de organização de ideias, garantindo que a autoria e a voz autêntica dos criadores continuem no centro do processo criativo.